A história da filosofia costuma simplificar: Santo Agostinho associado ao platonismo da alma; Santo Tomás de Aquino, séculos depois, como o grande mediador do aristotelismo no cristianismo. Um estudo recente, porém, usa comparação textual para mostrar que essa divisão não é tão rígida. Publicado na revista Atlantika (2023), a pesquisa demonstra como ideias lógicas foram adaptadas dentro de um projeto teológico.
O autor do estudo, Michael P. Foley, da Baylor University (EUA), afirma que Agostinho não se limitou a conhecer Aristóteles: ele reaplicou, reconfigurou e transformou categorias lógicas para responder perguntas teológicas nas suas Confissões. A pesquisa usa análise textual comparativa entre passagens-chave para traçar essa relação.
O “Abuso” da Juventude
O ponto de partida da análise é uma cena bem conhecida do Livro 4 das Confissões, quando Agostinho recorda que, por volta dos 20 anos, leu por conta própria o tratado aristotélico Categorias. Trata‑se de um livro técnico sobre classificação e termos lógicos — categorias como substância, qualidade e quantidade — cuja leitura fácil, segundo Agostinho, alimentou seu orgulho intelectual.
A interpretação tradicional vê esse episódio como uma rejeição do aristotelismo: Agostinho teria percebido ali uma forma de vaidade intelectual, um desvio do conhecimento espiritual. Foley propõe, contudo, outra leitura: o “problema” não é Aristóteles, mas o modo como o jovem Agostinho aplicou conceitos desenhados para o mundo criado ao que é divino.
De modo concreto: categorias como substância e qualidade servem para descrever coisas no tempo e no espaço. Atribuir essas mesmas categorias a Deus cria uma imagem errônea, como se o divino pudesse ser tratado “como coisa”.
Para aproximar o leitor: imagine aplicar categorias da física (massa, velocidade) para descrever a beleza de uma pintura — é um exemplo que ilustra a inadequação metodológica: termos úteis num domínio tornam‑se enganadores noutro. Foley sustenta que Agostinho, na sua juventude, cometeu esse tipo de transposição conceitual.
O estudo aponta ainda para uma relação mais ampla entre esta passagem e outras obras e trechos de Agostinho: a mesma terminologia reaparece em momentos distintos do texto — o que permite ao pesquisador traçar como essa aplicação indevida foi corrigida mais tarde.
Em termos de método, Foley realiza uma comparação direta entre as ocorrências das categorias nos livros das Confissões e lê essas passagens à luz das categorias aristotélicas — não para provar que Agostinho era um discípulo de Aristóteles, mas para mostrar a evolução do seu pensamento e a correção posterior desses usos.
Como glossário rápido para o leitor: substância é aquilo que existe por si; qualidade é forma ou atributo; quantidade é extensão ou medida. Esses termos são úteis para classificar coisas e objetos finitos — por isso, sua aplicação direta a Deus provoca o problema teológico identificado por Foley.
O Padrão de Redenção
A grande inovação do estudo de Foley é mostrar que as Confissões seguem um padrão literário de queda e ascensão — o chamado quiasmo — em que elementos usados indevidamente na primeira metade do livro reaparecem transformados na segunda metade, após a conversão.
Explicando de forma simples: um esquema quiasmal pode ser lido como A–B–B’–A’. No caso das Confissões, isso significa que imagens, referências e argumentos que aparecem como uso inadequado (A e B) na primeira metade são retomados e reconfigurados (B’ e A’) depois — criando uma unidade literária e teológica.
Foley mostra exemplos concretos: a figura do poeta Virgílio e a retórica de Cícero, que aparecem inicialmente como referências problemáticas, voltam em momentos posteriores com função redentora. Do mesmo modo, argumentos e categorias aristotélicas que tropeçaram no Livro 4 reaparecem “batizados” nos Livros 11 e 12 — uma mudança que indica não apenas correção conceitual, mas um projeto literário consistente.
Um exemplo comparativo: no Livro 4, a referência às Categorias serve para classificar e, nessa passagem, produz uma imagem de Deus sujeita a qualificações. Nos Livros 11 e 12, contudo, conceitos semelhantes são reelaborados para falar do tempo, da prioridade e da eternidade — não mais como atributos físicos, mas como modos teológicos de pensar a relação entre Deus e a criação.
Essa transformação sugere duas coisas para a leitura da obra: primeiro, que Agostinho trabalha por uma unidade literária e teológica — as mesmas imagens e termos recontextualizados servem a um movimento interpretativo; segundo, que há uma relação dinâmica entre sua formação filosófica e a elaboração teológica: o que era problema num dado momento torna‑se recurso numa vez purificado pela conversão e reflexão.
Para especialistas em filosofia e literatura, a leitura quiasmal reforça a hipótese de uma técnica retórica e teológica deliberada; para leitores gerais, ela explica por que temas e imagens retornam com outra função — e por que a obra conserva um sentido unitário, apesar das mudanças de tom.
A Lógica da Eternidade
A peça central da argumentação de Foley é uma análise comparativa de passagens onde Agostinho discute o tempo e a prioridade — textos que, quando cotejados com trechos das Categorias aristotélicas, revelam correspondências notáveis.
Tempo — o que diz Agostinho
No Livro 11 das Confissões, Agostinho discute o tempo como “quantidade contínua” do movimento da alma — uma formulação que ecoa definições aristotélicas sobre medida e continuidade. Foley mostra que o uso desses termos não é casual: a maneira como Agostinho pensa a duração, o presente e a memória muitas vezes reproduz o vocabulário técnico da tradição lógica, mas desloca-o para um problema teológico — como pensar Deus e a criação fora do cronos comum.
Prioridade — comparação com Aristóteles
A evidência mais explícita, segundo Foley, está no Livro 12 (passagem indicada como 12.29.40 na tradição editorial). Ali Agostinho lista tipos de “prioridade” — eternidade, tempo, escolha e origem — que correspondem funcionalmente às categorias de prioridade discutidas por Aristóteles nos capítulos finais das Categorias. A leitura de Foley não pretende transformar Agostinho em mero imitador: em vez disso, mostra um processo de tradução conceitual, em que termos técnicos recebem um novo sentido teológico.
Aristóteles, vale lembrar, trata também de uma “quinta prioridade” — a causalidade natural, onde causa e efeito se implicam (como o sol e a luz). Foley argumenta que Agostinho adapta essa estrutura causal para formular a “prioridade da eternidade”: Deus precede a criação sem, contudo, estar limitado pelo tempo cronológico, estabelecendo assim um modo de falar sobre origem e dependência que mistura filosofia e teologia.
Como Foley comprova — método e exemplos
O método é comparativo e textual: Foley identifica termos e estruturas em trechos-chave das Confissões e coteja essas ocorrências com passagens análogas nas Categorias. Em vez de indicar mera coincidência vocabular, ele avalia a função dos termos nos dois contextos e mostra padrões de equivalência — por exemplo, como “quantidade contínua” é usada para descrever tempo em Agostinho e continuidade em Aristóteles. Foley fornece trechos comparativos e notas que sustentam essa correlação.
Essas correspondências aparecem repetidas vezes ao longo dos livros 11 e 12, o que fortalece a hipótese de que Agostinho reconfigura conceitos filosóficos para tratar de problemas teológicos — sobretudo o problema da relação entre tempo e eternidade.
Implicações para a leitura das Confissões
Se a correspondência proposta por Foley se sustenta, mudam o modo e a imagem que temos de Agostinho: não mais apenas como receptor de Platão, mas como autor capaz de articular um diálogo criativo entre tradições. A relação entre filosofia e teologia nas Confissões ganha, assim, maior complexidade: categorias filosóficas servem como ferramentas que são reaproveitadas e transformadas para pensar o mistério da eternidade.
Para quem quiser verificar as fontes, Foley indica passagens precisas nas edições críticas das Confissões e das Categorias — recurso importante para que o leitor chegue às passagens comparadas e avalie a força dos paralelos.
Por que isso importa?
A descoberta de Foley altera a imagem que muitos têm de Agostinho: em vez de ser visto apenas como herdeiro do platonismo, ele emerge como um pensador capaz de sintetizar tradições filosóficas rivais — Academia de Platão e Liceu de Aristóteles — dentro de um projeto teológico coerente. Essa leitura amplia o alcance do conhecimento filosófico atribuído a Agostinho e realça a unidade e intencionalidade das suas obras.
Como escreve Foley: “Em vez de desconsiderar as conclusões de Agostinho sobre a harmonia recôndita entre os dois gigantes da filosofia clássica, a posição de Agostinho pode merecer nossa séria consideração”. A frase sublinha que a relação entre filosofia e teologia nas Confissões deve ser avaliada com mais nuance.
Além de redesenhar a relação entre filosofia e teologia, a descoberta tem implicações práticas para estudos contemporâneos: historiadores do pensamento, exegetas e filósofos podem reaproveitar esse enfoque para reavaliar outras passagens problemáticas — por exemplo, as discussões sobre tempo, prioridade e causalidade nas obras agostinianas.
O estudo também humaniza o autor: em vez de um teólogo dogmático que rejeita o que não entende, Agostinho aparece como um intelectual que, após superar a arrogância da juventude, reformula e encontra utilidade em ferramentas lógicas alheias — um processo que revela o modo como ele lidou com o mistério divino ao longo do tempo e através dos séculos.
Fonte: FOLEY, Michael P. “Agostinho, Aristóteles e as Confissões”. ATLANTIKA – Revista de Filosofia do Centro Atlântico de Pesquisa em Humanidades, Vol. I, no 01, 2023.
Para saber mais:
O artigo original “Agostinho, Aristóteles e as Confissões” está disponível no Vol. I, nº 01 da revista ATLANTIKA (2023).











