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O Retorno da “Matéria Prima”: Estudo propõe elo surpreendente entre a Física Quântica e a Filosofia de Aristóteles

O Retorno da "Matéria Prima": Estudo propõe elo surpreendente entre a Física Quântica e a Filosofia de Aristóteles
Foto: Liana S./Unsplash

A ciência moderna e a filosofia antiga costumam ser tratadas como mundos separados — duas tradições de pensamento que seguem regras diferentes. Mas um estudo recente de Everson G. Quirino, pesquisador da Universidade Federal do Norte do Tocantins, propõe uma relação inesperada: para compreender certos limites da física contemporânea pode ser útil revisitar Aristóteles e suas categorias sobre matéria, forma e potência.

Publicado na revista filosófica Atlantika, o trabalho sugere uma ponte conceitual: as conhecidas “flutuações do vácuo” da Teoria Quântica de Campos (TQC) poderiam ser interpretadas como uma espécie de matéria aristotélica — isto é, potência pura, uma capacidade latente pronta para se tornar ato e, por fim, realidade detectável.

O Vácuo que não é vazio

Para seguir a proposta de Quirino é preciso primeiro abandonar a ideia intuitiva de que o vácuo é um espaço realmente “vazio” e imóvel. Na Teoria Quântica de Campos (TQC), o vácuo é um estado dinâmico: por causa do Princípio da Incerteza (associado a Heisenberg) os campos quânticos apresentam flutuações contínuas que se manifestam como partículas virtuais — curtos episódios de existência que aparecem e desaparecem em escalas de tempo e energia diminutas.

O estudo resume essa ideia de forma direta:

“O vácuo na Teoria Quântica de Campos não é um estado estático, mas um estado de atividade contínua.”

Imagine um mar em que ondas de energia sobem e baixam — em certos pontos, por um breve momento, surge a possibilidade de algo se tornar real. Muitas dessas possibilidades retornam ao nada; algumas, dadas as condições certas de energia ou interação, podem realizar-se e transformar-se em partículas detectáveis.

Um exemplo prático e acessível dessa atividade de vácuo é o efeito Casimir, observado entre placas metálicas muito próximas: a manipulação das flutuações quânticas gera uma força mensurável. Em contextos extremos, como nas proximidades de um buraco negro, processos semelhantes explicam a chamada radiação de Hawking, em que parte da energia do campo pode converter flutuações virtuais em realidades observáveis.

É aqui que a ponte filosófica se torna plausível. Para Aristóteles — e para comentaristas medievais como Tomás de Aquino — “matéria” não era apenas um corpo físico, uma substância palpável; a matéria é aquilo que tem potência para ser algo diferente: uma semente tem a capacidade de ser árvore, por exemplo. Em termos aristotélicos, a matéria é um princípio de potencialidade, uma capacidade latente que, por um processo de mudança e atualização, pode tornar-se ato.

Portanto, quando Quirino fala em flutuações do vácuo ele está apontando para uma semelhança conceitual: essas flutuações representam uma potencialidade — uma matéria prima em sentido aristotélico — que, sob certas condições, tem a possibilidade de mudar de estado e realizar-se como existência observável. Essa relação entre potência e ato — ou entre possibilidade e fato — é um dos eixos que liga o pensamento antigo às explicações contemporâneas sobre a natureza do mundo quântico.

A Hipótese da Flutuação Aristotélica

Quirino propõe o que denomina “Hipótese da Flutuação Aristotélica” (HFA): não uma substituição da física por filosofia, mas uma analogia interpretativa que liga conceitos clássicos — potência e ato — às oscilações do vácuo na Teoria Quântica de Campos. A seguir, a argumentação é organizada em três frentes para facilitar a leitura.

Na Física: a linguagem técnica descreve como partículas virtuais surgem das flutuações do campo e, em condições adequadas de energia, podem tornar-se partículas reais, detectáveis por instrumentos. Trata-se de uma mudança de estado do campo: uma possibilidade que se atualiza. Exemplos bem conhecidos ajudam a ver isso em prática — além da radiação de Hawking, o efeito Casimir e eventos em aceleradores como LHC ilustram casos em que o que era virtual adquire existência observável.

Na Filosofia: Aristóteles formulou uma distinção central entre potência (dunamis) e ato (energeia): uma semente é uma árvore em potência, mas ainda não em ato; a matéria prima é o substrato que contém essa potencialidade. A teoria aristotélica inclui também noções de forma, essência e causas (as famosas quatro causas), que explicam não só a mudança, mas o modo como a mudança realiza um fim — a atualização de uma possibilidade em existência concreta.

A Conexão: a HFA não afirma que flutuações quânticas sejam literalmente a mesma “coisa” que a matéria aristotélica; apresenta, sim, uma relação interpretativa: se as flutuações carregam potencialidade — uma capacidade intrínseca de se tornar — então fazem o papel, no nível físico, que a matéria prima desempenha no pensamento aristotélico. A analogia mapeia “potência → ato” para “virtual → real”, oferecendo uma explicação ontológica possível para o modo como a natureza atualiza possibilidades em existência.

Para fortalecer o argumento, Quirino recorre a diagramas de Feynman (figura 1) e a formalismos da TQC: os diagramas, aqui, funcionam como ferramentas explicativas — eles mostram trajetórias possíveis de interação em que um estado virtual, sob aporte de energia ou influência gravitacional, atualiza-se em partícula real. Em termos aristotélicos, esse processo é uma realização, um movimento da potencialidade para a atualidade.

Figura 1 – Diagrama de Feynman para a interação elétron-pósitron via fóton. Fonte: Everson G. Quirino

Há, contudo, limites claros: a HFA é sobretudo hermenêutica. Filósofos e físicos — incluindo críticos contemporâneos — podem aceitar a utilidade conceitual dessa leitura sem concordar que exista identidade ontológica entre conceitos de épocas distintas. A proposta é valiosa porque oferece uma explicação adicional (uma lente metafísica) para compreender por que certos processos quânticos têm o comportamento que exibem, sem pretender invalidar as descrições matemáticas precisas da teoria.

Em última instância, a HFA sugere caminhos de diálogo: pesquisadores podem investigar se conceitos como matéria, potência e forma ajudam a formular novas perguntas sobre a natureza dos campos, a causalidade em nível quântico e o papel do movimento e da mudança no surgimento da existência — uma ponte entre a história da filosofia e a teoria física contemporânea.

Traduzindo o invisível

O estudo de Quirino não propõe substituir a matemática pela filosofia; ao contrário, sugere que cada disciplina responde a perguntas diferentes e complementares. A matemática e os formalismos da Teoria Quântica de Campos explicam o como — isto é, descrevem com precisão as regras e os cálculos que regem as flutuações do campo — enquanto a filosofia aristotélica busca responder o que essas entidades são em termos ontológicos: estruturas de potência, um reservatório de potencialidade pronto para ser atualizado.

Para tornar essa ponte mais palpável, o autor recorre a diagramas de Feynman — representações gráficas usadas por físicos para visualizar interações subatômicas. Esses diagramas não são provas finais, mas mostram possíveis trajetórias em que um estado virtual, sob aporte suficiente de energia ou interação, transforma-se em um estado real. Em linguagem aristotélica, esse processo corresponde à atualização da potência em ato: uma possibilidade que realiza-se e passa a existir.

Um exemplo concreto que conecta teoria e observação é o próprio LHC: colisões de alta energia ali realizadas são casos em que o campo quântico é excitado até que certas possibilidades virtuais se tornem partículas reais e detectáveis. Outro caso observável, em escala diferente, é o efeito Casimir, que demonstra como a manipulação das flutuações de vácuo produz forças mensuráveis. Esses casos ajudam a mostrar o modo como a natureza realiza mudança e movimento a partir de potencialidades internas do campo.

Em suma, Quirino propõe uma distinção útil: a teoria fornece o desenho técnico do funcionamento do vácuo; a filosofia oferece uma explicação conceitual sobre a essência e a potencialidade desse substrato. Essa abordagem — que combina conceitos de metafísica aristotélica (matéria, forma, causas) com evidências da teoria quântica — abre um campo de investigação onde historiadores da filosofia, filósofos da ciência e físicos podem dialogar sem perder a especificidade disciplinar de cada um.

Por que isso importa?

A proposta de Quirino chama atenção para uma lacuna conceitual na prática científica contemporânea: embora disponhamos de teorias e fórmulas extremamente precisas, muitas vezes falta uma interpretação ontológica que diga o que essas entidades realmente são. Em termos práticos, isso significa que conhecemos o funcionamento — o cálculo, o modelo — mas carecemos de uma explicação que integre essência, finalidade e substância nas descrições do mundo físico.

Recuperar conceitos aristotélicos — como matéria em potência, forma e as quatro causas — não é um retrocesso histórico, mas uma estratégia metodológica: eles oferecem categorias para pensar a natureza da mudança, o movimento de possibilidade para ato e o papel da matéria como substrato de realização. Por exemplo, ao perguntar “o que é uma partícula virtual?” a física pode responder tecnicamente; a filosofia pode complementar dizendo qual é a sua natureza enquanto coisa que tem capacidade de se tornar outra coisa.

As implicações são concretas para pesquisa e ensino: linhas interdisciplinares podem emergir — físicos, historiadores da filosofia e filósofos da ciência estudando conjuntamente se conceitos como potência e forma ajudam a formular novas hipóteses experimentais ou a interpretar dados ambíguos. Perguntas-guia úteis incluem: que tipo de mudança uma teoria admite como possível? Quais são as causas relevantes para a realização de uma possibilidade quântica? Esses questionamentos podem orientar investigação teórica sobre as causas eficientes e finais em contextos quânticos, sempre respeitando os limites metodológicos de cada campo.

Em suma, a HFA propõe uma ferramenta interpretativa que não anula a teoria, mas amplia o escopo explicativo: permite refletir sobre a realidade das entidades quânticas como potenciais que se atualizam, conectando explicação científica e reflexões de metafísica. Para quem pesquisa, é um convite a experimentar novas formas de cooperação disciplinar; para o leitor curioso, é um lembrete de que a história do pensamento ainda guarda conceitos capazes de iluminar as questões mais modernas.

Em suma, o estudo de Quirino nos convida a pensar o universo não como um conjunto fixo de objetos prontos, mas como um vasto oceano de possibilidades aristotélicas: o vácuo quântico funciona como uma espécie de argila primordial — a materia prima — carregada de potência, esperando condições adequadas para atualizar-se em ato e produzir a realidade que percebemos.

Essa metáfora tem implicações práticas: pesquisadores podem explorar se categorias como potência, forma e movimento ajudam a formular novas hipóteses experimentais ou a reinterpretar resultados ambíguos; professores podem usar a ponte histórica entre filosofia e teoria para enriquecer o ensino sobre a natureza e a existência.

Fonte: QUIRINO, Everson. Uma Abordagem Analítico-Dialética para Flutuações do Vácuo a partir da Filosofia Natural Aristotélica. Atlantika: International Journal on Philosophy, Rio de Janeiro, v. 2, n. 2, p. 11–24, 2024.


Para saber mais:

O artigo original “Uma Abordagem Analítico-Dialética para Flutuações do Vácuo a partir da Filosofia Natural Aristotélica“ está disponível no Vol. II, nº 02 da revista ATLANTIKA (2024).

https://revistaatlantika.com.br/ra/article/view/23

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