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Dr. Italo Marsili apresenta novo livro sobre Logoterapia

No último dia 23, o Dr. Italo Marsili, médico psiquiatra e fundador da Faculdade Mar Atlântico, lançou seu novo livro: “O Sentido da Vida Explicado: uma leitura definitiva sobre a Logoterapia de Viktor Frankl”. A obra é fruto de 14 anos de pesquisa, durante os quais o autor se debruçou, entre outras fontes, sobre os 16 livros escritos pelo psiquiatra austríaco. O lançamento aconteceu em um evento online com 4 mil espectadores. Na ocasião, Marsili também anunciou um curso para guiar os leitores pelos conceitos e argumentos das quase 900 páginas da obra. Neste primeiro momento, a compra do livro está disponível apenas para os inscritos no curso.

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A tese central do livro parte de uma constatação incômoda: quanto mais a vida de Frankl se tornou famosa, menos a sua obra técnica foi lida com o rigor que merece. O resultado é uma logoterapia celebrada, mas pouco examinada. A logoterapia é defendida com fervor, mas raramente é submetida às perguntas que os próprios discípulos deveriam ter feito. É esse intervalo, entre o que Frankl intuiu com precisão clínica e o que ele demonstrou filosoficamente, que o livro se propõe a preencher.

 

Estruturado em cinco partes e organizado com uma lógica arquitetônica (não biográfica, nem cronológica), o livro percorre desde a ontologia tridimensional do ser humano, corpo, psique e espírito, passa pelos conceitos centrais da práxis logoterápica, aprofunda os três caminhos do sentido e a tríade trágica, até chegar aos dois momentos que o autor considera os mais originais da obra: a distinção entre a antropologia declarada e a antropologia operante de Frankl, e o exame do que ele chama de a teologia suspensa, o limiar teológico que Frankl alcançou repetidamente ao longo de seis décadas sem nunca atravessar. Acompanha o livro um glossário completo de todos os termos técnicos da obra de Frankl, com distinções entre o vocabulário original e as formalizações propostas pelo autor.

Abaixo, você pode conhecer o Sumário e a Introdução do livro.

Sumário

PARTE I — A terceira dimensão
A terceira dimensão
Person e Charakter
Autodistanciamento
Autotranscendência
A potência rebelde do espírito

PARTE II — A praxis noética
A vontade de sentido
A liberdade de atitude
A consciência como órgão do sentido
A objetividade do sentido
O vazio existencial
A neurose noogênica

PARTE III — O que a dimensão noética encontra
Os três caminhos do sentido
A tríade trágica
O sofrimento
O amor
A morte e a transitoriedade
O Über-Sinn

PARTE IV — O sistema examinado
A antropologia declarada
A antropologia operante
O que o sistema acertou
O que falta
A teologia suspensa

PARTE V — O lugar de Frankl
O lugar de Frankl
O que ficou por fazer
Uma clínica do sentido
Glossário

Introdução

“Em vez de dissolver a individualidade humana nos seus elementos, mediante análises tediosas que arriscam perder-se em detalhes irrelevantes, a logoterapia busca consolidar e fixar o paciente, de imediato, no ponto central do seu ser, que é, e não por coincidência, também o ponto mais alto. Eis aí por que é inútil buscar provas teóricas do sentido da vida: ele não é uma máxima uniforme, válida para todos – é a obrigação imanente que cada um tem de transcender-se. Discutir o sentido da vida sem realizá-lo seria negá-lo; e, uma vez que começamos a realizá-lo, já não é preciso discuti-lo, porque ele se impõe com uma evidência que até a mente mais cínica se envergonharia de negar”.
– Olavo de Carvalho

É comum que a vida de homens realmente grandes seja aquilo que mais se conhece da sua obra, e que a obra técnica, por um efeito que a admiração produz nos que a recebem, acabe relegada a uma espécie de segundo plano honroso — consultada por obrigação, citada por fragmentos, mas nunca percorrida com o mesmo interesse que se dedica à biografia. Há nisto um mecanismo que não costuma ser examinado e que, se o fosse, revelaria algo sobre a natureza da recepção intelectual em geral: o temor de que a análise rigorosa da obra exponha lacunas que os admiradores preferem não ver, porque supõem, sem razão, que uma lacuna no sistema equivalha a uma mancha na vida do autor. O resultado é uma forma estranha de proteção, que sob a aparência do respeito opera como negligência — a obra é venerada na mesma medida em que é dispensada de exame.

Com Viktor Frankl esse fenômeno atingiu uma configuração própria. A vida é conhecida em detalhe: os campos, as perdas, o casaco trocado, o manuscrito costurado no forro, a frase sobre a última liberdade que resta ao homem quando tudo o mais lhe foi tirado. Os adeptos da logoterapia sabem recontar cada episódio com a fluência de quem já os repetiu dezenas de vezes, e essa fluência é real — o testemunho de Frankl possui uma força que dispensa comentário. O que a fluência encobre, porém, é a extensão do desconhecimento que existe sobre a obra propriamente técnica, aquela que Frankl escreveu ao longo de seis décadas em volumes que não se destinavam ao grande público e que exigem, da parte de quem os lê, familiaridade com distinções que o testemunho não contém. Peça-se a um defensor habitual da logoterapia que explique em que consiste o antagonismo noopsíquico facultativo, tal como aparece em El Hombre Doliente, ou que desenvolva o conceito de neuroses coletivas — as quase-neuroses civilizacionais que Frankl distingue com cuidado das neuroses clínicas em On the Theory and Therapy of Mental Disorders —, ou que descreva a função das hipercompreensões noopsíquicas na dinâmica do neurótico compulsivo, conforme exposta em Psicoterapia e Sentido da Vida, e o silêncio será quase total. Estes conceitos existem. Foram publicados. Pertencem ao corpo da obra tanto quanto a vontade de sentido ou a tríade trágica. Mas o testemunho os absorveu, ou antes, a celebração do testemunho produziu uma condição em que a obra clínica e filosófica sobrevive sem leitores atentos, protegida pela mesma veneração que a impede de ser lida com seriedade.

A consequência desta configuração não é apenas cultural, torna-se estrutural, mesmo. Um sistema de pensamento que não é examinado onde precisa de exame permanece vulnerável às objeções que os seus próprios defensores deveriam ter enfrentado. A logoterapia tem lacunas. Tem pontos onde o argumento flutua sem fundação suficiente, onde a coerência interna exigiria um passo que Frankl indicou mas não deu, onde a terminologia oscila entre registos e a mesma palavra designa coisas distintas em obras diferentes. Nenhuma dessas fragilidades diminui a estatura do que Frankl realizou. Todas elas, porém, precisam ser identificadas com precisão e, onde possível, resolvidas — quem mais se prejudica com uma fundação insuficiente é exactamente quem pretende servir-se dela na prática clínica e na orientação de vidas.

O trabalho que este livro realiza sobre a obra de Frankl parte de uma leitura integral das dezesseis obras que compõem o corpus disponível e acessível para mim, incluindo textos em quatro línguas e volumes que, pelo seu carácter técnico, circulam apenas entre especialistas. A leitura que fiz ao longo dos últimos doze anos foi conduzida com a mesma atenção que se dedicaria a qualquer autor cujo sistema se quisesse compreender por inteiro — o que significa que a generosidade interpretativa e o rigor analítico operam em simultâneo, sem que um dispense o outro. Onde Frankl argumenta com solidez, o argumento é exposto e desenvolvido nos seus próprios termos. Onde o argumento exige uma fundação que Frankl não forneceu, a fundação é proposta. Onde a terminologia gera ambiguidade — e há casos em que o mesmo termo, análise existencial, designa tanto o método de Frankl quanto o de Binswanger, sem que a distinção seja feita de modo consistente ao longo das obras —, a ambiguidade é identificada e, quando possível, resolvida.

As fragilidades que o exame revela são de natureza diversa. A mais grave diz respeito ao conceito que sustenta todo o sistema: a dimensão noética, aquela camada do humano que Frankl situa além do biológico e do psicológico, é assumida como dado ontológico sem que se ofereçam critérios que permitam distingui-la operacionalmente das funções psíquicas superiores. O postulado do espírito inleso, segundo o qual mesmo nas psicoses mais severas subsiste um núcleo espiritual intacto capaz de liberdade residual, permanece sustentado por observações clínicas pontuais e não por evidência sistemática. A relação declaradamente neutra da logoterapia com a religião convive, ao longo de toda a obra, com referências recorrentes ao supra-sentido e à presença ignorada de Deus que apontam numa direcção confessional nunca assumida como tal. Cada uma destas questões será examinada no lugar que lhe corresponde. Nenhuma delas é mencionada aqui por gosto de inventário, mas porque a sua existência condiciona a leitura de tudo o que se segue e porque o facto de terem permanecido sem exame durante décadas indica, por si só, a natureza da recepção que a obra de Frankl conheceu até agora.

O que este livro oferece ao logoterapeuta e ao leitor que leva Frankl a sério é aquilo que a veneração impediu: um tratamento da obra que a respeite o suficiente para a submeter ao exame que ela própria solicita. Há conceitos que Frankl formulou com precisão e que resistem intactos a qualquer análise — a vontade de sentido, a ontologia dimensional, a descrição da consciência como órgão do sentido. Há outros que estão na obra sem nome e sem formalização, e que só se tornam visíveis quando o sistema é percorrido na sua totalidade. Há outros ainda que precisam de uma fundação filosófica que Frankl não possuía ou não quis fornecer, e que permanecem, por isso, em estado de suspensão — válidos na intuição, frágeis na justificação. O trabalho de distinguir uns dos outros, de formalizar o que ficou sem nome e de fundar o que permaneceu suspenso, é o trabalho deste livro.

O ponto de partida é o conceito que Frankl colocou no centro do seu sistema e do qual tudo o mais depende: o noético, o estrato do humano que não se reduz ao corpo nem à psique e que Frankl designa, em momentos diferentes da obra, como Geist, como Person, como o propriamente espiritual. Deste conceito primeiro derivam os que lhe dão operatividade: a autotranscendência, o autodistanciamento, o antagonismo psiconoético — isto é, a capacidade que o espírito tem de se opor às determinações do organismo psicofísico — e a noodinâmica, a tensão saudável entre o que o homem é e o que o sentido lhe pede, desdobramentos que recebem aqui o tratamento que a sua centralidade exige. Desse núcleo procede tudo o que a dimensão noética faz: a liberdade incondicionada de escolher uma atitude mesmo quando as circunstâncias não podem ser alteradas, a vontade de sentido como motivação que antecede e subordina tanto o prazer quanto o poder, e a consciência tal como Frankl a entende — um órgão do sentido, intuitivo e falível, cuja falibilidade mesma constitui o fundamento da tolerância entre os homens. Quando essa vontade é frustrada, o sistema descreve uma sequência que vai da frustração existencial ao vazio existencial e deste à neurose noogênica — uma sequência que Frankl manteve consistente ao longo de décadas e que este livro reconstrói com fidelidade antes de a submeter a exame.

O que a dimensão noética encontra quando age constitui um terceiro momento do argumento: os valores criativos, vivenciais e atitudinais, os três modos pelos quais Frankl concebe a realização do sentido, e em particular o valor atitudinal, aquele que se realiza perante o sofrimento que já não pode ser suprimido e que Frankl associa à figura do homo patiens, o homem que sofre com dignidade e que, ao sofrer assim, realiza o valor mais elevado de que é capaz. A tríade trágica — sofrimento, culpa e morte — e a questão do supra-sentido, o sentido último que excede a capacidade intelectual do homem e ao qual só se acede por um acto de decisão existencial próximo da fé, pertencem a este mesmo momento e abrem as questões que o livro enfrenta na sua fase final. É a partir daqui que a análise se desloca da obra declarada para a obra operante: as estruturas que organizam o pensamento de Frankl sem que ele as tenha nomeado, as matrizes que distribuem os seus conceitos em eixos que a obra pressupõe mas não formaliza, e as insuficiências propriamente ditas — os pontos em que o sistema solicita uma fundação que não recebeu e que, recebendo-a, se tornaria mais coerente do que o seu autor o deixou. A questão do limiar teológico, a tensão entre a neutralidade confessional que Frankl declara e a gravitação para a transcendência que os seus textos documentam, é tratada por último porque só pode ser tratada depois de tudo o resto ter sido examinado — e porque é ali, nesse limiar, que o sistema revela com maior lucidez tanto a sua força quanto o que lhe falta.

O que está em causa neste exame excede o interesse historiográfico ou o mero exercício de comentário. A logoterapia orienta práticas e sustenta decisões clínicas. Informa a maneira como terapeutas compreendem o sofrimento dos seus pacientes e a maneira como esses pacientes são conduzidos — ou não — a uma relação com o sentido da própria existência. Um sistema com este grau de incidência sobre vidas concretas não pode subsistir com fundações que nunca foram testadas, com ambiguidades que nunca foram resolvidas, com pressupostos filosóficos que estão lá, sem serem reconhecidos como tais. A questão não é se Frankl estava certo ou errado — há nele intuições de uma acuidade que poucos autores do século XX alcançaram, e o facto de o seu sistema ter resistido a décadas de aplicação clínica sem revisão de fundo diz algo sobre a robustez do que captou. A questão é que uma intuição, por mais certeira que seja, permanece aquém do que se exige de um sistema quando esse sistema pretende orientar a acção de outros. A intuição capta. O sistema precisa justificar o que a intuição captou, e é nesse intervalo — entre o que Frankl viu e o que Frankl demonstrou — que o presente trabalho se situa.

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