Um acervo reunido ao longo de uma vida chega à Faculdade Mar Atlântico e com ele, a história do homem que colaborou para a fundação da psicologia no Brasil.
Ao decidir o destino da biblioteca de Hanns Ludwig Lippmann, os filhos do professor concordavam em um ponto: aquele acervo precisava continuar em movimento. Lippmann foi o criador do primeiro curso superior de Psicologia do Brasil, fundado na PUC-Rio, em 1953, e ajudou a estruturar mais cinco cursos pelo estado do Rio de Janeiro. Os livros que acumulou ao longo dessa trajetória – mais de 13 mil itens entre periódicos, revistas técnicas e documentos manuscritos – foram distribuídos entre a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a Universidade Católica de Petrópolis (UCP) e a Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio). Os 700 exemplares que chegaram à Faculdade Mar Atlântico completam esse percurso.
“Para a nossa faculdade, receber a biblioteca do professor Lippmann foi um presente inesperado”, disse Renato Moraes, diretor da FMA e responsável pelo recebimento do acervo. “Poder ter conosco o acervo de um intelectual desse porte, responsável pela estruturação do curso de psicologia no Brasil, é um privilégio.”
Filho único de um médico, Lippmann nasceu em Berlim, em 1921. Estudou em um dos colégios mais tradicionais da Alemanha, o Graues Kloster, antes de emigrar para o Brasil com a família, em 1936. Continuou os estudos no Colégio São Bento, em São Paulo. De 1939 a 1945, cursou Filosofia no Instituto Beneditino, em Santos. Em seguida, cursou Serviço Social na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Quando Lippmann chegou ao Rio, em 1949, a Psicologia era uma disciplina essencialmente técnica, restrita à psicologia do trabalho e à psicologia criminal. Não havia, no país, um curso superior de Psicologia como disciplina autônoma. Atento às tendências da Europa e dos Estados Unidos com relação à expansão da Psicologia enquanto curso superior, Lippmann entendeu que era possível fazer o mesmo aqui. Em 1953, criou o primeiro curso superior de Psicologia do Brasil, na PUC-Rio. Nos 28 anos seguintes, ajudou a estruturar os cursos da UERJ, da UFF, da Gama Filho, da Santa Úrsula e da UCP. Seis cursos, no total.
“Até então, a Psicologia era um curso muito técnico”, contou Clemente, seu filho. “Ele vislumbrou o que já estava acontecendo no resto do mundo: a psicologia como uma matéria independente.”
O pioneirismo não parou na graduação, como lembra André, outro filho do professor. Como representante do Ministério da Educação, Lippmann era responsável pela avaliação e aprovação de novos cursos que surgiam no Rio de Janeiro e em outros estados do Brasil, o que pavimentou o caminho para a criação de cursos de extensão, pós-graduação, mestrado e doutorado. Com isso, mais pessoas puderam se especializar. Esse legado chegou até instituições como a própria FMA, que hoje oferece pós-graduações em psicologia construídas sobre a estrutura que Lippmann ajudou a consolidar.
A biblioteca não surgiu de uma intenção colecionista. Foi crescendo junto com o dono. Os primeiros livros vieram da Alemanha com os pais: filosofia, poesia alemã e os livros de medicina do pai. Em São Paulo e no Rio, Lippmann foi agregando os títulos da sua própria formação. Trabalhava numa revista de medicina fazendo resenhas de publicações alemãs e comprava o original de cada título pelo qual se interessava. Parava em sebos, encomendava obras. A maior parte da coleção era em alemão. Com muitos volumes de antropologia e sociologia, ele tinha interesse genuíno pela cultura brasileira, e isso também transparece no acervo. O apartamento onde morava tinha livros em todos os cômodos, exceto a cozinha e o banheiro.
Para os filhos, a decisão de doar não foi difícil. Era a continuação natural do que o pai fazia. “Ele dizia que não podia se isolar num castelo acadêmico”, lembrou Clemente.
Havia também uma dimensão humana que os que o conheceram descrevem com consistência. Lippmann dava aula em cursos de Psicologia, Pedagogia, Filosofia e Direito. Fazia avaliação curricular em universidades do país inteiro. Entre seus alunos estava Aroldo Rodrigues, que se tornaria referência mundial em Psicologia Social.
Mas o que os filhos mais ressaltam não é o currículo, e sim a maneira como ele entendia o próprio trabalho. Lippmann era católico, com formação beneditina, e usava essa base para pensar sobre o homem. “Ele conseguia fazer essa ponte entre ciência e religião”, disse Clemente. “Jamais se prendia a seguir algo contrário à vida humana, à caridade e à dignidade do homem.”
O objetivo declarado era o desenvolvimento integral do ser humano. Educação permanente, formação de professores, congressos, tudo passava por essa ideia. Era, no fundo, um grande humanista que escolheu a Psicologia como ferramenta.
Em abril de 2021, no centenário do nascimento de Lippmann, PUC-Rio, UERJ e UCP promoveram um webinário em sua homenagem. Mais de 300 pessoas se conectaram. Para os filhos, foi a confirmação de algo que eles já sabiam: o trabalho do pai tinha durado.
O professor Renato Moraes, que já começou a consultar os títulos recebidos, espera que os alunos façam o mesmo. “Queremos aprender dos grandes mestres, e o professor Lippmann mostra a importância de um fundamento filosófico amplo e rigoroso para o entendimento da psicologia. A partir dos nossos predecessores mais valiosos, como o prof. Lippmann, queremos avançar no estudo da psicologia, da filosofia e das humanidades.”
A biblioteca permaneceu por décadas numa casa em Petrópolis e depois distribuída entre algumas faculdades do Rio. Uma parte dela chegou à Faculdade Mar Atlântico. São exemplares de Antropologia, Filosofia, Psicologia e Sociologia em seis línguas, à espera de leitores e alunos.














