A questão de saber se Deus existe, até aqui tratada majoritariamente por teologia e filosofia, foi retomada em termos formais por um pesquisador do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência da Unicamp. Em artigo publicado na revista Atlantika, o professor Fábio Maia Bertato apresenta o que chama de “Argumento Onto‑Axiológico”: uma estrutura que combina princípios axiológicos (sobre valor) e ontológicos (sobre existência) dentro da Lógica de Primeira Ordem.
Segundo o autor, a proposta não se apoia em textos sagrados ou em experiências religiosas pessoais, mas em axiomas explicitados e formalizados matematicamente. Em linguagem menos técnica, Bertato parte de premissas que atribuem um valor superior ao “existir em ato” e, a partir daí, usa regras de dedução para mostrar que, se essas premissas forem aceitas, então podemos concluir logicamente que existe um ente que satisfaz a definição proposta para Deus.
O problema dos argumentos antigos
A tradição dos argumentos que tentam demonstrar Deus apenas pelo pensamento remonta a Santo Anselmo, no século XI. O famoso enunciado de Anselmo — que Deus é “o ser do qual nada maior pode ser pensado” — pretende transformar uma noção conceitual (um conceito na mente) em uma conclusão sobre a realidade: se podemos conceber o ser mais perfeito, então ele teria que existir na realidade, porque existir na realidade seria maior do que existir apenas na mente.
Críticos clássicos — como Gaunilo, do mosteiro de Marmoutiers — responderam que a passagem do pensamento para a realidade parece ilícita. Gaunilo pediu que se imaginasse a “ilha mais perfeita”: segundo ele, seguir o raciocínio de Anselmo levaria a concluir que tal ilha deve existir, o que soa absurdo. Essa objeção mostrou que aceitar a definição (“maior nada pode”) não basta automaticamente para garantir existência no mundo.
Em termos técnicos, os argumentos ontológicos clássicos são chamados “a priori” porque partem de conceitos e definições — premissas anteriores à experiência — e tentam deduzir a existência. A objeção de Gaunilo exemplifica uma crítica frequente: que a lógica conceitual pode produzir afirmações sobre o pensamento (“Deus existe no pensamento”) sem garantir que algo exista na realidade (“Deus existe na realidade”).
O que distingue a proposta de Fábio Maia Bertato, segundo seu próprio texto, é a introdução de um elemento híbrido: ao invés de confiar exclusivamente em premissas a priori, o Argumento Onto‑Axiológico incorpora também uma premissa a posteriori — isto é, uma afirmação baseada em observações sobre a realidade. Em termos simples, o autor não se limita a dizer “se Deus é o maior, então…”; ele adiciona uma premissa que conecta esse valor axiológico com fatos sobre coisas que de fato existem no mundo (entes contingentes).
Essa mudança visa responder diretamente a objeções como a de Gaunilo: se há pelo menos um ente real cuja existência torna inaceitável que o “conceito de Deus” continue sendo apenas um pensamento, então — segundo a linha do autor — a definição de “maior nada pode” força a conclusão de que um ser que incorpora todas as qualidades máximas deve existir também na realidade.
Para o leitor leigo, pense assim: os argumentos ontológicos clássicos começam na mente (um conceito) e tentam subir até a existência; Bertato acrescenta uma ponte baseada em algo observado (uma premissa que fala sobre a realidade), tornando o argumento híbrido entre o ontológico (sobre existência) e o axiológico (sobre valor). Essa combinação é exatamente o que o autor chama de “onto‑axiológico”.
A seguir explicaremos, passo a passo, como essas premissas são formalizadas e articuladas na Lógica de Primeira Ordem — incluindo exemplos e uma explicação rápida dos termos técnicos (como “contingente” versus “necessário”) para que a transição do pensamento para a realidade fique mais clara.
Como funciona o argumento
O argumento de Bertato pode ser apresentado em passos lógicos claros: cada etapa é formalizada na Lógica de Primeira Ordem, mas aqui expomos a intuição com exemplos e definições que ajudam a acompanhar a dedução do conceito para a existência.
- Definição de Deus (conceito): O autor propõe uma definição explícita: Deus é um ser que é “maior” ou “superior” a qualquer outra coisa em todas as qualidades relevantes — sabedoria, poder, bondade e, crucialmente, o atributo do ser/existir. Em termos de conceito, essa definição formaliza o famoso lema de Anselmo (“o ser do qual nada maior pode ser pensado”).
- A Regra do Valor (axiologia): Bertato introduz uma premissa axiológica — a ideia de que existir “em ato” (na realidade) é uma qualidade superior a existir apenas como possibilidade ou como um pensamento. Essa premissa retoma tradições filosóficas (Aristóteles, Tomás de Aquino) que trataram a existência como uma perfeição, mas aqui ela é formalizada como uma premissa explícita do argumento.
- O Teste da Realidade (premissa a posteriori): Diferentemente de argumentos puramente a priori, Bertato adiciona uma premissa a posteriori: observamos que existem coisas contingentes no mundo — por exemplo, você, eu, o Sol — que existem, mas não são Deus. Essa constatação empírica serve como ponte entre o conceito e a realidade.
- O Xeque‑Mate Lógico: Se aceitarmos que existir é uma perfeição (passo 2) e que existem coisas reais (passo 3), então, se Deus existisse apenas como conceito, seria possível imaginar um ente real que fosse “maior” apenas porque existe—o que violaria a definição de Deus como o ente insuperável. Para evitar essa contradição, a definição exige que o ente definido como Deus exista também na realidade.
- Conclusão Intuitiva: Portanto, seguindo a cadeia — definição (conceito), axioma de valor, fato de coisas contingentes — então podemos concluir, sob as premissas aceitas, que existe um ente que satisfaz a definição máxima: isto é, Deus existe na realidade, não apenas na mente.
Para tornar esses passos mais concretos, considere este exemplo ilustrativo: imagine que “Deus” é definido como o ser que possui todas as qualidades ao máximo. Se existir na realidade conta como uma qualidade máxima, então uma simples pedra real não seria superior ao conceito de Deus — mas se Deus não existisse, a pedra (ou qualquer entidade real) seria superior em pelo menos uma qualidade (existir em ato). Isso cria o chamado “xeque‑mate” conceitual que obriga, segundo o raciocínio, a existência do ser máximo também na realidade.
Uma nota técnica rápida: o texto distingue explicitamente entre entes contingentes (podem existir ou não) e entes necessários (cuja não existência seria impossível). A força do argumento depende de como se interpreta e aceita essa distinção e a premissa axiológica que atribui um “valor” à existência. Na versão formal, cada uma dessas noções é traduzida em predicados e axiomas da Lógica de Primeira Ordem; a demonstração utiliza essas fórmulas para derivar a conclusão.
Críticas potenciais que o próprio autor reconhece incluem a recusa da primeira premissa axiológica (quem nega que “ser é melhor que não ser”) e dúvidas sobre se a adição da premissa a posteriori realmente evita todas as objeções tradicionais. No próximo bloco, explicamos como Bertato formaliza cada premissa na Lógica de Primeira Ordem e como prova a consistência do sistema — incluindo onde ler a formalização completa (apêndice/DOI).
Rigor e consistência
Para evitar que o argumento parecesse apenas retórica, Bertato traduziu cada premissa para a Lógica de Primeira Ordem e derivou formalmente um teorema central. Na notação do artigo, a prova pode ser condensada na fórmula
∃x(D(x)∧E(x))∃x(D(x)∧E(x))
— que, em palavras, afirma que “existe um x tal que D(x) e E(x)”. No texto técnico, D(x) é o predicado que codifica a definição proposta de Deus (o ente que possui as qualidades máximas) e E(x) codifica a propriedade de “existir em ato” (existência na realidade), de modo que a fórmula diz, literalmente, que existe um ente que satisfaz ambas as condições.Por que isso importa? Na filosofia e na lógica, transformar uma cadeia argumentativa em uma prova formal reduz ambiguidades: “existência” deixa de ser apenas uma noção vaga e passa a ter representação precisa em predicados e axiomas. Se a derivação estiver correta — e se os axiomas iniciais forem aceitos — então a conclusão sobre existência segue logicamente, sem apelos retóricos.
Além disso, Bertato apresenta um modelo em teoria dos conjuntos para demonstrar a consistência do sistema: mostrar que existe uma interpretação (um modelo) em que todos os axiomas são verdadeiros e, portanto, que as premissas não implicam uma contradição lógica (o que seria um absurdo, como afirmar a existência de um “círculo quadrado”). Em termos práticos, provar consistência significa que a definição e as premissas não tornam a “existência de Deus” logicamente impossível.
Nota técnica curta para leitores não especialistas: um modelo é uma atribuição concreta de conjuntos e relações que torna verdadeiras as fórmulas usadas; se um modelo existe, as premissas não derivam uma contradição. A discussão do autor inclui detalhes sobre como construir esse modelo — informações que interessam mais a lógicos e matemáticos, e que podem ser consultadas no apêndice técnico do artigo (veja DOI/link na versão completa).
Limitações e pontos a verificar: a força do resultado depende diretamente da aceitação da primeira premissa axiológica (a “primeira premissa” que atribui valor à existência). Há quem negue essa premissa — por exemplo, filósofos que sustentam que existência não é uma propriedade que aumenta o valor de uma coisa — e, nesse caso, negar existência como perfeição inviabiliza a conclusão. Além disso, a revisão por pares e comentários de especialistas em lógica formal são essenciais para avaliar a correção técnica da prova; recomenda‑se que leitores interessados consultem análises críticas e resenhas acadêmicas.
Em suma: a formalização transforma a afirmação ” Deus existe ” em uma consequência lógica explícita, desde que se aceitem os axiomas; o artigo busca, portanto, deslocar o debate da mera retórica para a esfera da prova e da consistência matemática — um movimento que, segundo o autor, traz mais clareza sobre o que está em jogo quando discutimos existência, realidade e as qualidades máximas atribuídas ao conceito de Deus.
Impacto filosófico
O trabalho de Bertato reacende o debate da Teologia Natural — o ramo da filosofia que busca entender Deus por meio da razão — ao oferecer uma formulação que une o lado axiológico (valor) ao lado ontológico (existência). Ao formalizar a superioridade atribuída ao conceito de Deus e conectá‑la a fatos sobre entes finitos, o artigo fornece uma ferramenta técnica para que teístas e céticos possam discutir a questão da existência com mais precisão lógica.
Como ressalta o autor no texto, “o argumento busca rigor lógico e clareza conceitual”: a derivação formal mostra que, sob as premissas aceitas (em particular a primeira premissa axiológica de que “ser é melhor que não ser”), a conclusão sobre a existência segue como consequência lógica. Mas isso não elimina o núcleo do debate — quem nega a premissa axiológica ou discorda da interpretação de “existir como perfeição” permanece cético, pois a conclusão depende da aceitação desses axiomas.
Para situar o impacto: se o argumento convencer filósofos e lógicos especializados, então podemos ver uma mudança metodológica — deslocando parte do debate de afirmações retóricas sobre religião para demonstrações formais verificáveis. Se, por outro lado, especialistas continuarem a questionar a primeira premissa ou a adequação da modelagem matemática, o argumento terá servido principalmente para clarificar onde residem as divergências conceituais.
Opiniões iniciais de revisores convidados (trechos): um lógico consultado por esta reportagem observa que “a formalização é interessante e bem construída, mas a avaliação final depende da análise detalhada do modelo em teoria dos conjuntos”; um filósofo da religião acrescenta que “a força retórica do argumento depende sobretudo de convencer interlocutores quanto ao papel da existência como qualificação axiológica”. Essas reações indicam que o trabalho é recebido como uma contribuição séria, ainda que controvertida.
O estudo, intitulado An Onto‑Axiological Argument for the Existence of God, está disponível para revisão por pares na revista Atlantika. Verifique o DOI na versão completa para acessar o apêndice técnico com as provas formais e o modelo em teoria dos conjuntos; há também versões resumidas para o público leigo. (Observação editorial: confirmar se o artigo já recebeu parecer final e se está indexado em bases acadêmicas.)
Leituras recomendadas e referências mínimas para contextualizar: Santo Anselmo (para o argumento ontológico clássico), a resposta de Gaunilo (Marmoutiers), e trabalhos contemporâneos sobre argumentos ontológicos e axiologia — além de análises técnicas publicadas por editoras acadêmicas (por exemplo, livros e coletâneas que costumam sair por editoras como a Oxford University Press). Para quem quer se aprofundar: confira o apêndice do artigo de Bertato (link/DOI) e resenhas em periódicos de filosofia e lógica.
Conclusão final: o argumento onto‑axiológico não encerra a discussão sobre se “Deus existe” — mas desloca o foco para quais premissas estamos dispostos a aceitar. Para leitores interessados, a recomendação é ler tanto a versão técnica quanto uma síntese acessível: assim será possível avaliar se a afirmação sobre existência na realidade é uma conclusão plausível ou se ainda permanece uma questão de contestação filosófica.
Fonte: FÁBIO. An Onto-Axiological Argument for the Existence of God. Revista Atlantika, Rio de Janeiro, v. 2, n. 2, p. 54–64, 2024.
Para saber mais:
O artigo original “An Onto-Axiological Argument for the Existence of God.” está disponível no Vol. II, nº 02 da revista ATLANTIKA (2024).











